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Meu Aleph - de Bárbara Lia
August 04, 2007 07:03 PM PDT
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Houve um tempo
Em que em minhas veias
Corria um rio de jasmim.

Naquele sobrado
Com balanço no jardim
E músicas de Villa-Lobos.

Houve um tempo
Em que o barulho da chuva
Adormecia as crianças.

Toda leveza, dias brancos
Em que eu era o algodão doce
Na boca da monotonia...

...E ela a diluir-me
Entre seus dentes
L-e-n-t-a-m-e-n-t-e.

Houve um tempo
Em que acreditei em Deus
E me cobri de lírios...

...Corpo tesão moreno
Em roupas de Woodstock,
Fugindo de mãos lascivas.

Houve um tempo...

As crianças cresceram.
Não há sobrado. Não há Jardim.
Não há Deus...

...Nem melodia de chuva.
O piso branco me acena
Quatro andares abaixo.

A lua zomba da minha solidão.
Ácida, aponta estrelas
Que não são minhas.

Bêbada, me tira pra dançar,
Depois, deita-me naquela cruz

— Cruzeiro do sul.

Acordo
E tem um rio podre
Em minhas veias...

...Rasga e acelera
Meu coração
Em mágoa coagulada.

Nas pessoas, não há sorrisos.
Nem esperanças de primavera.
E na luz do dia, me apavoro...

...Rostos que olho e
Vejo cadáveres,
Meninos mortos, esqueléticos.

Árvores sangrando
Folhas negras
E vento rasgando a rua.

Os cachecóis coloridos
São forcas esgarçadas

E as calçadas, areias movediças.

A música enlouquece em
Guitarras estridentes.
Anjos satânicos dedilhando gritos.

O sol esfria nas artérias.
O aroma do pão fresquinho congela no ar
E não chega aqui, para me lembrar — é dia!

É noite! Apocalipse!
Morte dentro, angústia
De não poder amar-te — Meu Aleph!

Calar o universo que me ninava
Como chuva na grama.
Que me fazia pisar o Jardim de Deus.

É um apocalipse de mágoa,
Ter que calar teu nome,
E não poder gritar saudades.

Poema: Bárbara Lia
Voz e enredo sonoro: Rogério Santos